Tenho os olhos a arder, e o peito claramente em chamas. E a vovó sabe como me canso facilmente. Que preciso fechar os olhos para não entrar nenhuma poeira ou de me sentar, porque tenho um pulmão mais pequeno que o outro. E não posso reclamar como foram ingratos comigo, porque ainda assim me deram dois. Mas, vovó: o mundo não é uma fábrica de conceder desejos – já dizia John Green.
O que queria mesmo dizer-lhe é que estive tão perto de si que cheguei mesmo a pensar que havia harpas no céu e folhas brancas para eu puder escrever. Que sentir o seu cheiro na minha camisola e o seu beijo na minha testa, foi como morrer nos seus braços - ainda que eu esteja viva. E eu não estou chateada. Não pense que foi muito pouco tempo para o tempo que eu queria ter estado consigo. Porque foram os infinitos mais duradouros que alguma vez me senti a adormecer. E eu queria mesmo ter caído no sono. Sabe, quando me empurraram. Porque é uma merda puder olhar-lhe e não conseguir tocar-lhe. Uma grande merda!
E há pessoas tão más, vovó. Que me custa a acreditar que nasceram assim ou que foi o mundo que não foi feito para elas. Porque: nós fomos feitos para o mundo, mas tem gente que nem o mundo tem com elas. E sabe, é verdade que se pode viver com a dor. Eu aprendi a viver sem si. Mas dói. Atenua, mas dói. E também aprendi que só se morre quando somos esquecidos, e vovó eu não quero ser esquecida. Quero ser lembrada por algo maior a mim – o que não deve ser muito difícil. E eu tento, vovó. Juro que tento. Mas a maldade das pessoas é tão grande que ofusca a felicidade que se vê nos meus olhos. Porque, eu já fui feliz. Eu já irradiei felicidade, como ele me disse uma vez. Mas depois… Oh, depois tudo me leva a ser tão má quanto essas pessoas. E eu digo-lhe, vovó: é uma merda! Magoar alguém que nos faz tão bem, e tão feliz. Para depois sermos nós os alvos de dor. Mas é merecido. É doloroso, mas merecido. Porque, é tudo uma questão de perspectiva: assim como uma montanha-russa tem altos e baixos, a vida também tem. E nestes últimos dias, tem sido tudo como uma bola de neve. Que acumula demasiadas coisas más e que nos derruba. Mas é a cair que nos levantamos, eu é que ainda não consegui.
Mas, como estava a dizer: eu não quero ser esquecida. Talvez seja por isso que eu escreva tanto, para mais tarde me puderem ler. Só que, vovó, as minhas palavras não chegam para fazer alguém feliz e sabe quanto isso me magoa?! Sou tão feita de palavras que me esqueço do resto. E o resto também é importante. Mas sabe, eu gostaria que alguém sorrisse ao me ler. Alguém que fosse ele, vovó. E ele não é nada perfeito nem essas coisas, mas é nos defeitos que eu gosto dele. E às vezes pergunto-me se serei tão insana por conseguir amar os defeitos de alguém. Eu não percebo nada do amor, mas quanto sei: é errar tantas vezes, quantas as vezes que nos conseguem perdoar. Porque amar é errar. É perdoar, porque um amor sem perdão não é amor. Um amor sem erros não é amor. E eu disse que não percebia nada do amor, e não percebo vovó. Mas amar é também não querer viver num mundo sem si. E eu realmente não quero viver num mundo sem ele. Porque Gosto Dele. E, vovó, eu acredito – acho que acredito em muitas coisas ultimamente – que não é do universo que queremos chamar a atenção. A não ser que alguém seja isso mesmo: o nosso universo. Porque, toda a gente tem uma pessoa. E eu quero ter a minha. A. Minha. Pessoa. E quero ser a pessoa de alguém. De. Alguém.
O itálico, vovó - percebeu?
Com a exaustão de memórias,
De quem nunca se esquecerá.

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